A Nova Etapa de Haddad na Política Paulista
A política é um campo peculiar, onde a ressurreição é uma constante. Fernando Haddad, que ocupou por três anos o cargo de ministro da Fazenda no terceiro governo Lula, experimentou várias mortes e renascimentos políticos. Batizado de “Taxad” em razão do aumento de impostos, Haddad também foi fundamental na aprovação de reformas importantes, como a reforma tributária. Na última quinta-feira, após um período de expectativa, anunciou sua candidatura pelo PT ao governo de São Paulo, algo que pode ser visto como uma manobra para conquistar os votos necessários para um possível quarto mandato de Lula.
Haddad não era a primeira escolha de Lula para o cargo de ministro. Durante uma reunião em novembro de 2022 na Conferência de Meio Ambiente da ONU, o presidente eleito contemplou outros nomes, como o senador Jaques Wagner. Contudo, Haddad apresentou um plano abrangente, que detalhava como renúncias fiscais em governos anteriores poderiam financiar promessas eleitorais. Essa estratégia lhe garantiu a nomeação como ministro.
Um Ministro em Tempos de Crise
A relação entre Haddad e Lula começou conturbada, com desautorização pública de decisões da Fazenda e desentendimentos sobre a autonomia do Banco Central. O mercado financeiro, que sempre teve suas reservas em relação a Lula, passou a ver Haddad de forma negativa. Um estudo que escrevi em 2018, intitulado “O Pior Emprego do Mundo”, mostra as tensões entre ministros da Fazenda e presidentes. A trajetória de Haddad se encaixa perfeitamente nesse cenário, com a pressão constante por resultados positivos.
No entanto, Haddad não se deixou abalar. Ele montou uma equipe de confiança em sua pasta, incluindo nomes como Dario Durigan e Rogério Ceron, mesmo diante de críticas e desconfianças, tanto da esquerda quanto da direita. A necessidade de apoio de ex-ministros como Aloizio Mercadante e Guido Mantega foi uma constante durante seu mandato.
Desafios e Decisões Cruciais
Em meio a vitórias como a reforma tributária, Haddad enfrentou desafios significativos. Mesmo com a aprovação de medidas importantes, Lula desautorizou publicamente promessas, como o fim do déficit fiscal, e reafirmou que as prioridades eram a popularidade e os investimentos em projetos prioritários. A tensão aumentou ainda mais com críticas abertas do PT, onde Gleisi Hoffmann chegou a chamar as políticas de Haddad de “austericida”.
As divergências entre Haddad e Lula tornaram-se cada vez mais evidentes. Em discussões sobre ajustes fiscais, Haddad alertou que a reação do mercado poderia ser desastrosa, mas Lula insistiu que seu entendimento político estava acima das preocupações econômicas. Esse embate culminou em uma situação delicada, onde a taxa do dólar disparou e a taxa Selic alcançou níveis alarmantes.
A Virada e as Perspectivas Futuras
Quando finalmente Haddad e Lula conseguiram dialogar novamente, já era evidente a necessidade de um aumento de impostos para equilibrar as contas. A proposta de aumentar a arrecadação por meio do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) gerou reações negativas e levou o Congresso a considerar a medida como ilegal. Haddad, no entanto, encontrou uma forma de transformar sua imagem, adotando uma estratégia de comunicação que o distanciou das críticas e o reposicionou como líder.
A campanha digital do PT, que enfatizava a divisão entre “nós contra eles”, foi um divisor de águas. Essa abordagem, inovadora para a esquerda, permitiu que o partido recuperasse apoio em meio a críticas e dificuldades. A partir desse momento, Haddad passou de um político em desvantagem para um ativo essencial para Lula na construção de um novo futuro político.
O Desafio das Eleições
Agora, com a ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, Haddad terá que trabalhar arduamente para ajudar Lula a conquistar votos em um estado historicamente oposicionista. Sua missão vai além de uma simples candidatura; é uma oportunidade para defender seu legado como ministro e, possivelmente, se posicionar para um papel decisivo no futuro pós-Lula.
Em suma, a trajetória de Haddad revela não apenas seus desafios pessoais, mas também os complexos jogos de poder dentro do PT e a dinâmica da política brasileira atual. Como seus assessores costumam dizer, Haddad, de fato, tem um plano.

