Reflexões sobre os Excessos da Televisão
Em 2004, a balconista de farmácia Shandi Sullivan acreditava que sua vida mudaria para sempre ao participar do reality show “America’s Next Top Model”, que esteve no ar nos Estados Unidos até 2018. Favorita para vencer a segunda temporada do programa idealizado e apresentado pela renomada supermodelo Tyra Banks, Shandi terminou em terceiro lugar, enfrentando uma devastadora perda emocional. Sua frustração não se deu apenas pela derrota na competição — que envolvia contratos com agências de modelos e marcas de beleza —, mas pela experiência traumática de ter sido abusada sexualmente diante das câmeras.
A narrativa de Shandi é abordada na nova série documental “America’s Next Top Model: Choque de Realidade”, recentemente lançada na Netflix. Este documentário é parte de uma crescente onda de produções culturais que revisitam os excessos da televisão dos anos 2000. Um exemplo semelhante é “Magreza na TV: A verdade de The Biggest Loser”, também da Netflix, que relembra a implacável competição de emagrecimento que foi exibida entre 2004 e 2016 e teve sua versão brasileira apresentada como “O Grande Perdedor”.
Ayla Pinheiro Gomes, doutoranda em Comunicação da UFF e pesquisadora em cultura pop, comenta sobre essa tendência: “Esses documentários refletem as ondas nostálgicas que têm permeado as produções culturais recentes. Considerando que esses reality shows eram marcantes na cultura dos anos 2000, era esperado que voltassem a ser discutidos de alguma maneira.”
Impacto das Redes Sociais e da Pandemia
O renovado interesse por esses programas pode ser atribuído, em parte, às redes sociais, especialmente durante a pandemia, quando muitos encontraram conforto e entretenimento nos conteúdos do passado. A Netflix, atenta a essa tendência, decidiu produzir essas novas abordagens, que, embora tenham atraído grande audiência — a série sobre “America’s Next Top Model” alcançou o primeiro lugar global na semana de estreia, em fevereiro —, também enfrentam críticas contundentes. A expressão “rage bait”, que se refere ao conteúdo que provoca indignação para gerar visualizações, tem sido frequentemente associada a essas produções.
Daniel Sivan, um dos diretores de “Choque de Realidade”, discorda dessa análise e celebra o debate que a série gerou em torno da imagem corporal e da representatividade. “Conduzir uma discussão sobre esses temas é raro. As pessoas se engajam mais em debates sobre futebol ou suas bandas favoritas, mas não têm o mesmo foco em questões maiores nas redes sociais”, argumenta Sivan, durante uma chamada de vídeo.
Padrões de Beleza e Racismo Estrutural
Ao longo das temporadas de ambos os reality shows e outros da mesma época que mesclavam competição e transformação, padrões de beleza muitas vezes foram exacerbados de forma degradante. Participantes negros e latinos enfrentavam estereótipos e um racismo que era, em muitos casos, explícito. Os produtores e apresentadores, em entrevistas atuais, alegam que esses programas eram “produtos do seu tempo”, uma justificativa que não convence a todos. No documentário, Tyra Banks raramente assume a responsabilidade pelos equívocos do programa, colocando a culpa na normalidade daquela época.
“Não aceito isso”, afirma Daniel. “Quando algo está errado, simplesmente está errado. Não precisamos de uma visão de 20 anos para perceber isso.”
A jornalista e crítica cultural Sophie Gilbert, autora do livro “Garota sobre Garota” (Editora Todavia), que analisa como esses e outros produtos influenciaram padrões de beleza e consumo entre mulheres millennials, concorda com essa visão. “Muitas pessoas já criticavam esses programas nos anos 2000”, recorda Gilbert em entrevista por e-mail. “A diferença hoje é que temos uma compreensão muito mais profunda sobre saúde mental e sobre os efeitos prejudiciais da humilhação na TV. Estamos menos dispostos a aceitar esse tipo de tratamento. Enquanto nas redes sociais isso pode ser diferente, na televisão, a audiência está mais atenta a essas questões.”

