Propostas para um Ambiente Eleitoral Mais Seguro
O debate sobre a aplicação do ECA Digital em eleições revela um cenário complexo da política brasileira. Enquanto muitos consideram a proposta um avanço civilizatório, outros enxergam a necessidade urgente de reformular o ambiente digital, que atualmente se assemelha a um parque de diversões administrado por incendiários. O cidadão brasileiro, ao acessar seu celular para checar a previsão do tempo, frequentemente se depara com um verdadeiro corredor polonês repleto de medo, raiva, boatos e fanatismo. O que deveria ser um espaço de diálogo e debate público, acaba se tornando uma armadilha para a captura da atenção, transformando-se em um cassino de indignação, onde sempre há alguém se beneficiando do conflito.
O ECA Digital, com base em uma ideia clara, postula que nenhuma criança deve ser deixada sozinha em um ambiente que explora sua vulnerabilidade. Mas se devemos levar isso em consideração, o questionamento que surge é: e os eleitores adultos, como ficam? O espírito do ECA Digital sugere que não deveríamos utilizar a fragilidade emocional dos indivíduos como combustível para campanhas. A prática de descobrir, por meio do perfilamento, quem está vulnerável — seja por medo, frustração ou endividamento — e inundar esses grupos com conteúdo intensificado para fomentar paranoia e rejeição, não deveria ser aceitável.
Além disso, é essencial considerar que o problema da manipulação digital não está restrito a um único espectro ideológico. O risco de desinformação e manipulação também é evidente naqueles que, em sua busca pela retórica moral, caricaturizam adversários ao invés de buscar um entendimento mais profundo das necessidades do país. Tanto os extremos quanto os moderados tendem a transformar as eleições em um tribunal moral, alimentando-se da simplificação e prosperando em um cenário onde o eleitor é empurrado para uma lógica de medo, pureza e rivalidade absoluta.
Pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva revelam uma realidade distinta da agitação que predomina nas redes sociais. A maioria da população brasileira não está em um estado constante de militância; ao contrário, o cidadão médio busca organizar sua vida, proteger sua família, pagar suas contas e ter um futuro ao qual possa aspirar. No entanto, o design do ambiente político digital recompensa e promove exatamente o oposto: aqueles que são mais raivosos, performáticos e exagerados, transformando qualquer discussão em um apocalipse iminente.
Ao analisarmos quem sairia perdendo se o processo eleitoral fosse guiado mais de acordo com os princípios do ECA Digital, a resposta é clara: perderiam os profissionais da desinformação, os comerciantes de fake news e os candidatos que, por não saberem propor soluções, recorrem à intoxicação do discurso. Também estariam em desvantagem as plataformas que, enquanto publicamente se isentam de responsabilidade, lucram com a radicalização dos debates, agindo como se fossem meros mediadores, quando na verdade são os proprietários do megafone e da sala de audiência.
O resultado de um processo eleitoral menos similar a um bar de esquina no fim da noite e mais próximo de uma conversa madura entre adultos seria uma eleição mais transparente, onde haveria um maior controle sobre quem promove determinado conteúdo, uma consciência ampliada sobre o uso de deepfakes e uma responsabilidade reforçada sobre mentiras deliberadas. Isso proporcionaria um espaço mais seguro, com menos oportunidades para a manipulação emocional em larga escala. Em última análise, o que se ganha é uma campanha que respeita o eleitor como cidadão, não como um mero experimento em um laboratório algorítmico.
Minha provocação, portanto, é simples. Se reconhecemos que crianças precisam de proteção contra ambientes digitais que capturam suas atenções e exploram suas fraquezas, talvez esteja na hora de admitirmos que a democracia também exige medidas para proteger os adultos de eleições que estão desenhadas para fomentar vícios, ódio e cegueira. A hora de agir é agora.

