Fortunato Ortombina e a Transcendência da Ópera
Durante uma conversa surpreendente, Fortunato Ortombina, diretor-geral do renomado Teatro Scala de Milão, compartilhou sua visão sobre a ópera como uma linguagem universal. “Certa vez, investiguei a vida do capitão da seleção brasileira de 1958, Hilderaldo Bellini, na esperança de descobrir alguma conexão familiar com o compositor Vincenzo, de Catania”, revelou Ortombina, que também é torcedor fervoroso da Inter. A pesquisa, no entanto, levou-o a descobrir que as raízes da família do zagueiro eram, na verdade, do Vêneto.
Ortombina assumiu o cargo no Scala após uma respeitável gestão no Teatro La Fenice, em Veneza, e tem se mostrado um nome forte na cultura milanesa. O Scala, considerado um dos mais importantes teatros de ópera do mundo, é gerido por um conselho que envolve a Prefeitura, o Ministério da Cultura, a Câmara de Comércio e diversos patrocinadores. As aberturas da temporada, que coincidem com feriados e eventos de grande magnitude, refletem a importância cultural do teatro na cidade.
No próximo ciclo de óperas, Ortombina herda uma programação desafiadora, incluindo ‘O Anel do Nibelungo’, de Wagner. Sob a regência da australiana Simone Young, a produção promete ser um marco, destacando vozes aclamadas como Camila Nylund como Brünnhilde e Klaus-Florian Vogt como Siegfried. Após o término da série, ele também anunciou as aberturas de temporadas futuras, como ‘Otello’ e ‘Um Baile de Máscaras’, ambos de Verdi, com diretores de renome como Myung-whun Chung e Luca Guadagnino.
A Complexidade de Programar Ópera
Mas como é gerenciar um projeto tão ambicioso? “Programar é a parte mais simples; o verdadeiro desafio é fazer acontecer”, explicou Ortombina. Com uma equipe de 900 colaboradores, ele enfatiza a importância de construir relações sólidas para garantir o sucesso do espetáculo. O Scala, segundo ele, é uma extensão da cidade de Milão, assim como a cidade é uma parte vital do teatro.
A relevância da ópera nos dias atuais é um tema que Ortombina discute com paixão. Para ele, a ópera é uma linguagem que conecta todas as civilizações. “Não há ninguém que nunca tenha ouvido uma nota de Puccini”, afirmou. Ele acredita que as obras de grandes compositores como Verdi e Puccini são mais do que entretenimento; são verdadeiros profetas que continuarão a ressoar por séculos. “Mesmo após 500 anos, as pessoas ainda sentirão a necessidade de ouvir ‘Simon Boccanegra’ ou ‘La Bohème'”, acrescentou.
Desafios e Inovações na Ópera Moderna
Com a crescente demanda por experiências únicas, como o compartilhamento em redes sociais, muitas pessoas se perguntam como a ópera pode se adaptar. Ortombina refuta a ideia de que a pandemia transformou irreversivelmente o setor. “Os teatros na Itália estão mais cheios do que antes. O Scala continua a atrair o público, que valoriza a experiência ao vivo”, enfatizou, destacando a qualidade excepcional da Filarmônica.
A encomenda de novas obras, como a adaptação de ‘O Nome da Rosa’, de Umberto Eco, mostra que o público busca inovação. “O teatro estava lotado, e isso indica que as pessoas têm interesse em novas narrativas”, disse Ortombina, expressando seu otimismo quanto ao futuro da ópera.
Conexões entre Brasil e Itália na Ópera
No que diz respeito à conexão entre Brasil e Itália na ópera, Ortombina menciona a importância de Carlos Gomes. “Ele é um compositor fundamental, muito ligado a Milão. Mas há muito mais a explorar”, afirmou. Ele sugere que o Brasil, visto como distante, pode surpreender o mundo da ópera com suas narrativas ricas, como a obra de Jorge Amado, que transcende o exótico e provoca reflexões profundas.
O Papel do Teatro em Tempos de Polarização
Por fim, ao ser questionado sobre o que arriscar em um mundo politicamente polarizado, Ortombina enfatizou a necessidade de cautela. “Sempre é preciso estar ciente do que se está arriscando. Porém, as casas como o Scala têm um público que é sensível e exigente. A música, nesse contexto, permanece soberana e essencial”, concluiu, reafirmando a relevância do teatro e da ópera na cultura contemporânea.

