Inovação no Setor Sucroenergético
A crescente escassez de mão de obra no corte da cana-de-açúcar tem levado usinas em Alagoas a buscar soluções no exterior. Em São José da Laje, uma das regiões da Zona da Mata Norte, a Usina Serra Grande começou a importar colheitadeiras projetadas originalmente para pequenas propriedades na Índia. Essa mudança visa mecanizar áreas de relevo acidentado que, até então, dependiam do corte manual, uma prática que enfrenta desafios crescentes.
Esse movimento não é apenas uma resposta a uma necessidade imediata, mas reflete uma transformação estrutural no setor sucroenergético brasileiro. O Brasil, que se destaca como o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, com mais de 650 milhões de toneladas colhidas anualmente, é também líder na inovação tecnológica agrícola. Contudo, a combinação de relevo e topografia complicados, especialmente no Nordeste, força os produtores a adaptarem equipamentos estrangeiros para as realidades locais.
Desafios da Mão de Obra
A situação torna-se mais crítica, principalmente devido à dificuldade de renovar a mão de obra envolvida no corte manual. A idade média dos cortadores de cana já ultrapassou os 40 anos, e especialistas do setor indicam que a nova geração não se interessa em trabalhar nesta atividade. “A cada safra, a dificuldade de contratar mão de obra para o corte manual da cana aumenta”, afirma um agrônomo de uma usina alagoana.
Com cerca de 340 mil hectares dedicados ao cultivo de cana, a mecanização em Alagoas ainda está em fase de desenvolvimento. Atualmente, estima-se que apenas 35% das áreas colhidas utilizam máquinas, concentrando-se principalmente nos tabuleiros do litoral sul, enquanto na Zona da Mata, marcada por terrenos irregulares, o corte manual ainda é a norma.
Colheitadeiras Adaptadas para Desempenho Eficiente
Após cerca de dois anos em operação, essas colheitadeiras se tornaram uma alternativa viável à falta de trabalhadores qualificados. Cada unidade é capaz de colher até 200 toneladas por dia. Com quatro máquinas em funcionamento, a usina já alcançou a marca de 800 toneladas diárias, mesmo em áreas onde as condições operacionais são limitadas.
De acordo com Miguel Bezerra, um dos industriais envolvidos no projeto, esse investimento é uma estratégia para assegurar a continuidade da produção. “Essas máquinas são menores, têm esteiras nas rodas traseiras para maior estabilidade e podem operar apenas com pneus, sendo extremamente eficientes em áreas pequenas, onde manobras frequentes são necessárias e impactam diretamente na produtividade”, explica.
Mecanização: Uma Necessidade Estratégica
A mecanização deixou de ser uma mera inovação técnica e se tornou uma necessidade estratégica no setor. O número de trabalhadores disponíveis para o corte manual tem diminuído a cada ano, pressionando as usinas a explorarem alternativas. “O corte manual de cana está em declínio, e a mecanização se tornou uma questão de sobrevivência para o setor. Estamos adaptando áreas que foram projetadas para o corte manual para serem mecanizadas”, destaca Bezerra.
Outro aspecto importante dessa transição é a possibilidade de aumentar a colheita de cana crua, reduzindo gradualmente a prática da queima do canavial, que, embora facilite o corte manual, está sendo abandonada com a mecanização crescente. “Estamos preparando o terreno, retirando pedras e nivelando áreas para ampliar a colheita mecanizada com segurança e eficiência”, acrescenta o industrial.
Avanços e Desafios no Relevo
Embora a mecanização esteja avançando em Alagoas, o relevo acidentado ainda representa um obstáculo significativo para o uso de colheitadeiras convencionais na maior parte da Zona da Mata. A importação e adaptação de equipamentos menores é uma tentativa de superar essas dificuldades. Operadores como Magno Cláudio, que atuam diretamente com as máquinas, relatam resultados positivos. “Estamos no segundo ano de operação e o desempenho das máquinas tem sido notável. Elas são ágeis e nos permitem aumentar a colheita mecanizada, diminuindo a dependência do corte manual”, afirma Cláudio.
O progresso dessas tecnologias aponta para uma transformação gradual no setor sucroenergético. Em um cenário marcado pela escassez de mão de obra e pelo aumento dos custos operacionais, a mecanização se destaca como uma das principais estratégias para garantir a competitividade e a sustentabilidade na produção de cana em Alagoas.

