Infiltração do Crime Organizado nas Estruturas Públicas
A organização Human Rights Watch (HRW) recomenda uma revisão significativa das políticas de segurança pública no Brasil, com foco especial no combate às facções criminosas. Em um capítulo do seu relatório dedicado ao país, a entidade destaca a urgência de enfrentar a infiltração do crime organizado em diversos níveis da administração pública.
Durante uma entrevista ao g1, o diretor da HRW no Brasil, César Muñoz, trouxe à tona uma informação alarmante: segundo um promotor que investiga facções, há indícios de que policiais estão envolvidos em todas as investigações que ele conduz. “As facções têm conseguido corromper agentes públicos para proteger suas atividades ilícitas. Isso inclui, em diversas situações, a participação de políticos, especialmente em esferas locais. Essa é uma faceta extremamente perigosa do crime organizado, pois pode corroer as instituições de dentro para fora”, alertou Muñoz.
O relatório da ONG sugere que as autoridades brasileiras realizem “investigações detalhadas e fundamentadas em inteligência” para desvelar as ligações entre criminosos e membros do poder público. As propostas da HRW incluem:
- Uso de dados e ciência para desmantelar as organizações criminosas;
- Proteção dos direitos da população e dos policiais;
- Desenvolvimento de estratégias de segurança que priorizem a investigação;
- Independência nas perícias em todo o território nacional;
- Aprimoramento da coordenação entre órgãos federais e estaduais para combater tráfico de armas, lavagem de dinheiro e identificar as fontes de renda das facções.
Desvendando a Rede de Corrupção
Recentes investigações descobriram que a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) está infiltrada em setores cruciais, como o transporte público e o mercado de combustíveis, utilizando fundos de investimento localizados na Faria Lima para lavar dinheiro. Além disso, foram identificados esquemas de fraude em contratos de prefeituras.
No final do ano passado, a Justiça Militar condenou 11 policiais militares que prestavam segurança ilegal a Antonio Vinícius Gritzbach, um delator do PCC que foi executado a tiros no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Esse incidente expôs ainda mais a conexão entre agentes públicos e o crime organizado, afetando tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil do estado.
Preocupações Crescentes com a Segurança Pública
A segurança pública se tornou uma das maiores preocupações dos brasileiros, conforme apontam as pesquisas de opinião mais recentes. Segundo um levantamento da Ipsos-Ipec, divulgado no dia 2 de outubro, 41% da população vê o crime e a violência como as principais questões a serem enfrentadas.
Os meses finais de 2025 foram marcados por intensas discussões sobre segurança pública, especialmente após uma megaoperação policial contra o Comando Vermelho que resultou na morte de 121 pessoas, incluindo quatro policiais. Em resposta a essa crise, o presidente Lula (PT) enviou ao Congresso duas propostas: a PEC da Segurança Pública, que busca fortalecer o papel do governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que visa aumentar as penas para membros de facções. Ambos os textos ainda estão em debate.
Muñoz enfatiza que a relevância do tema segurança deve colocar esse assunto no centro da próxima eleição presidencial, exigindo atenção redobrada dos candidatos. “Defendemos iniciativas fundamentadas em dados e evidências, que não apenas desmantelam as organizações criminosas, mas também garantem a proteção dos direitos de todos, incluindo a população e os policiais”, comunica.
Críticas às Estratégias Policiais
Além de solicitar mudanças na abordagem ao crime organizado, o relatório da HRW critica as atuais estratégias das polícias brasileiras, que tendem a aumentar a violência. De acordo com dados do Ministério da Justiça atualizados em 3 de outubro, policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, o que representa um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
“Durante muito tempo, o modelo de combate ao crime foi baseado em operações de estilo militar, nas quais policiais adentram comunidades de baixa renda em situações de confronto. Já temos evidências de que esse método não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ao contrário, ele gera insegurança e coloca em risco tanto a população quanto os próprios policiais”, analisa Muñoz.
A HRW propõe, em seu relatório de 2026, que o Brasil desenvolva políticas que garantam efetivamente os direitos humanos da população.
Contexto Global e Avanços Autoritários
O relatório também aborda questões globais, destacando o novo mandato de Donald Trump como um potencial “avanço autoritário” que compromete os direitos humanos. A HRW aponta que muitos líderes mundiais, como Vladimir Putin e Xi Jinping, representam ameaças à ordem global, com 72% da população mundial vivendo sob regimes autoritários atualmente.
A organização defende a formação de uma coalizão internacional para enfrentar esse avanço e ressalta a necessidade de atenção redobrada às violações de direitos humanos em todo o mundo.

