O Impacto de um Crime Ambiental
O que ocorre em Maceió não é mais um mero aglomerado de incidentes isolados, nem uma simples falha técnica. O cenário atual representa um crime contínuo, caracterizado pela repetição sistemática de danos, um aumento constante no número de vítimas e a resignação diante do sofrimento humano. Sob a perspectiva do sofrimento das vítimas, qualquer outra análise se revela insuficiente e moralmente inaceitável.
A atuação da Braskem na cidade segue um padrão que vai além da suavização por termos técnicos ou jurídicos: trata-se de uma verdadeira lógica de serial killer ambiental. Não no sentido retórico comum, mas na definição exata de quem provoca mortes sucessivas ao longo do tempo, deixando um rastro interminável de destruição. A diferença aqui é que as mortes ocorrem de forma lenta — sociais, econômicas, emocionais e ambientais — afetando sempre os mesmos corpos: os das populações mais vulneráveis.
O afundamento do solo, resultado da exploração predatória e irresponsável do salgema, foi o primeiro grande ato desse crime em série. Anunciado e sustentado por alertas técnicos ignorados, ele culminou na remoção forçada de bairros inteiros. Não se trata apenas de casas perdidas. São histórias cortadas, redes de solidariedade desfeitas, idosos que morreram sem poder elaborar o luto por suas moradias, e crianças marcadas por deslocamentos forçados. Cada fissura no solo corresponde a uma ruptura profunda na vida das vítimas.
Destruição Cultural e Autonomia
Assim como todo serial killer, a violência não se deteve após o primeiro ataque. Ela avançou sobre os manguezais, devastando quilômetros de áreas protegidas. Esse dano ambiental tem um claro endereço social: pescadores e marisqueiras que perderam não apenas sua fonte de renda, mas também a dignidade. Quando o mangue perece, a segurança alimentar, a cultura tradicional e a autonomia de comunidades inteiras também desaparecem.
A sequência de destruição chegou à Lagoa Mundaú, um dos sistemas lagunares mais importantes do Nordeste. Sob suas águas, concentram-se as principais minas de salgema, cuja presença tem alterado artificialmente a salinidade da lagoa, levando à morte do ambiente marinho. O desaparecimento de peixes e crustáceos não é apenas um dado ecológico: representa a falência do modo de vida de milhares de famílias que dependem da pesca artesanal para sua sobrevivência. É a destruição lenta de uma identidade coletiva.
A Continuidade do Sofrimento
Mesmo diante desse rastro de devastação, novas agressões continuam a ser impostas às populações afetadas, como a aplicação indiscriminada de inseticidas em áreas urbanas, sem critérios técnicos claros, transparência ou controle social. Essas pessoas, já profundamente feridas, são novamente expostas a riscos químicos, como se suas vidas fossem descartáveis. O padrão se repete: danos, silêncio, impunidade e novas vítimas.
Por isso, é preciso afirmar com clareza: sem uma reparação integral às vítimas e ao meio ambiente, o crime prossegue. Reparação não é um favor ou uma compensação parcial. Trata-se do reconhecimento pleno do sofrimento causado, da reconstrução de vidas, da recuperação ambiental verdadeira e da garantia de não repetição. Qualquer acordo que ignore essa centralidade apenas legitima a continuidade da violência.
Um Chamado à Ação
Colocar as vítimas no centro do debate não é apenas um recurso retórico, mas uma exigência ética, social e política. Enquanto o sofrimento das pessoas expulsas de seus territórios, dos pescadores privados de sua subsistência e das comunidades adoecidas não for plenamente reconhecido e reparado, Maceió continuará a ser o palco de um crime em série e o serial killer ambiental seguirá agindo impunemente.

